segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Lembrar-se


Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos sei? assim: como se me lembrasse. Com um esforço de "memória", como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é a carne viva.

sábado, fevereiro 23, 2008

Por não estarem distraídos




Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Por ser hoje



...sem nenhum acontecimento me provocando, sem nenhuma expectativa, de tarde, esta tarde, eu, aplicando-me na caligrafia que tem ocupado as minhas horas, eu, também eu uma das freiras, em labor de abelha bordo a fio de ouro: Viva 7 de junho.

sábado, fevereiro 16, 2008

A arte de não ser voraz



- Moi, madame, j'aime manger juste avant la faim. Ça fait plus distingué.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Porque eu quero



Esta primavera é bem seca, e o rádio estala captando sua estática, a roupa se eriça ao largar a eletricidade do corpo, o pente levanta os cabelos imantados, é uma dura primavera. E muito vazia. De qualquer ponto em que se está, parte-se para o longe: nunca se viu tanto caminho. Fala-se pouco; o corpo pesa com o seu sono; em geral os olhos são grandes e inexpressivos. No terraço está o peixe no aquário, tomamos refresco olhando para o campo. Como vento, vem do campo o sonho das cabras. Na outra mesa do terraço um fauno solitário. Olhamos o copo de refresco e sonhamos estáticos dentro do copo. "O quê!" "Eu não disse nada." Passam-se dias e mais dias. Mas basta um instante de sintonização e de novo captar-se a estática farpada da primavera: o sonho impudente das cabras, o peixe todo vazio, uma súbita tendência ao roubo, o fauno coroado em saltos solitários. "O quê?" "Nada, eu não disse nada." Mas percebo um primeiro rumor, como um coração batendo embaixo da terra. Quieta, colo o meu ouvido na terra e ouço o verão abrir caminho por dentro, e meu coração bate embaixo da terra - nada eu não disse nada - sinto a paciente brutalidade com que a terra fechada se abre por dentro, e sei com que peso de doçura o verão amadurecerá cem mil laranjas, e sei que as laranjas são minhas, porque eu quero.